A infraestrutura logística do Brasil

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A greve dos caminhoneiros vivenciada em nosso país nos últimos dias, escancarou para a população brasileira a extrema dependência que temos do setor rodoviário. A paralisação que durou cerca de 10 dias, trouxe desabastecimento nacional de combustíveis, alimentos, água e produtos hospitalares, trazendo caos e afetando até o desempenho do PIB brasileiro.

Os principais questionamentos do público em geral que surgiram nesse momento de crise de abastecimento, foi o porquê de não termos mais investimentos em ferrovias e outras alternativas ao transporte rodoviário, e como o Brasil é comparado com outros países na questão de infraestrutura logística. Vamos entender um pouco a situação dos modais de transporte brasileiros:

Rodoviário

Sim, somos muito dependentes do transporte rodoviário no Brasil. No infográfico acima podemos perceber que comparado a países de mesmo porte territorial como Austrália, China, Canadá, Estados Unidos e Rússia, o Brasil é o que possui maior porcentagem de uso do transporte rodoviário para a movimentação de cargas.

O início dessa dependência se dá na década de 50, quando o governo decidiu que a indústria automobilística seria um dos pilares do desenvolvimento econômico brasileiro e para o sustento dessa política, a infraestrutura rodoviária virou foco dos investimentos no país. Mas não pensem que essas medidas nos colocoram em um patamar de dar inveja na questão rodoviária, pelo contrário. Hoje nossa malha rodoviária chega a 1,5 milhões de quilômetros, mas apenas 12,3% das estradas são pavimentadas.

O atual estado de nossas rodovias é evidente para qualquer pessoa que deseja ir de um estado ao outro, nota-se a precariedade e insegurança em qualquer lugar do país. Esse descaso reflete diretamente no custo de transporte brasileiro, pois a manutenção dos caminhões torna-se muito maior, os riscos de acidente são mais altos e o tempo de duração para entrega de mercadorias aumenta consideravelmente.

Ferroviário

Como consequência da política adotada na década de 50, o setor de transporte ferroviário foi completamente esquecido por várias décadas. Criada no Brasil Imperial principalmente para o escoamento da produção de café, nossa malha ferroviária nessa época era um terço menor que a atual, porém com a mesma produtividade. A extensão ferroviária teve seu auge na década de 30, porém a má administração do governo federal (que novidade) trouxe o setor a bancarrota. Foi quando em 1956, ano em que o prejuízo do setor já afetava 14% das receitas do governo, decidiu-se por abandoná-lo completamente.

Os investimentos nas ferrovias brasileiras foram pífios por cerca de cinco décadas, quando então nos anos 90 decidiu-se por iniciar a privatização do setor. Essa “privatização” é em aspas pois ainda que tenham vendido concessões à empresas privadas, o setor continua ainda altamente regulado e repelindo a concorrência. Por exemplo, ainda temos uma empresa estatal que controla a administração e criação de estradas de ferro no Brasil, a VALEC. E claro, a ANTT como uma boa agência reguladora, repele concorrentes e novos entrantes com sucesso. Leia mais sobre como agências reguladoras afetam os consumidores.

Ainda que com essa falsa privatização do setor, conseguimos avançar consideravelmente com a administração de empresas privadas no setor ferroviário. De 1997 a 2013, saltamos de 253 milhões de toneladas para 508 milhões de toneladas transportadas sobre trilhos, um aumento de 90% em menos de duas décadas.

Hidroviário

Por fim, o transporte de pouco conhecimento e melhor alternativa para escoamento de commodities, o Hidroviário, caracteriza-se por sua baixa exploração no território brasileiro. A primeira afirmação se comprova por meio de comparativos de capacidade de carga entre os modais, por exemplo, quatro barcaças puxadas por um rebocador possuem capacidade de carga de até seis mil toneladas. Seriam necessários 86 vagões de 70 toneladas, ou 172 caminhões carretas bi-trem para transportar a mesma quantidade. Reflitam no quanto um comboio de barcaças é capaz de desafogar as estradas brasileiras.

Tendo em vista essa enorme vantagem de capacidade de carga, naturalmente se faz a pergunta, mas temos rios navegáveis para isso? Temos, e muito mais do que o suficiente. O Brasil possui cerca de 42 mil quilômetros de rios navegáveis, mais do que os Estados Unidos ou toda a Europa. É notória a falta de exploração desse modal em nosso país, que seria o ideal para escoar a safra de soja e milho do centro-oeste por exemplo. Hoje dois terços de nossa produção agrícola é transportada por rodovias, e as perdas, devido principalmente pela precariedade das estradas, causa perdas milionárias.

Conclusão

A ineficiência na logística brasileira é notória, estamos em 55º lugar entre 160 países em um ranking elaborado pelo Banco Mundial. Sofremos hoje com políticas erradas do passado e do presente, focamos demasiadamente no transporte rodoviário e mesmo assim nossa infraestrutra é precária nesse modal. Deixamos de explorar o modal hidroviário que já nos presenteia com uma infraestrutura natural pronta, e com isso causamos perdas milionárias a vários setores.

O somatório de todas essas questões encarece e muito o transporte brasileiro. Não bastasse a alta carga tributária em tudo (mais nesse artigo) entregamos uma infraestrutura patética para o desenvolvimento de nossa logística. Hoje é mais barato enviar uma mercadoria do porto de Santos para a China por navio, do que enviarmos um frete rodoviário de Campinas à Santos. E esse panorama é difícil de mudar, pois mudanças estruturais de infraestrutura demandam muito tempo e investimento. Até lá teremos de arcar com toda essa ineficiência, e consumir produtos mais caros em reflexo disso.

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