O assustador modo que o sistema bancário funciona

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O que é um Banco?

A teoria define que um banco é uma instituição financeira, que possui a função de intermediar a relação entre agentes superavitários e agentes deficitários, gerando seu lucro através da cobrança de juros. Em outras palavras, um banco capta recursos de poupadores, oferecendo X% de juros em troca, e empresta esses recursos a empreendedores, cobrando Y% de juros em troca. A diferença das taxas de juros (Y – X) seria a fonte de receitas do banco, que é uma operação comumente chamada de spread bancário.

Foi seguindo essa lógica que os bancos foram criados, com a proposta de servir como intermediador da oferta e demanda de dinheiro. Os bancos então deveriam ficar atentos a desequilíbrios do mercado, corrigi-los e lucrar em cima dessa operação. Para isso precisavam fazer uma análise minuciosa e gerenciar riscos ao definirem quem seriam os tomadores de empréstimos, e se esses honrariam suas contas. Esse processo de direcionar dinheiro de poupanças para empreendedores, transferindo de um indivíduo para outro, criava o que é chamado de crédito real, alicerce para a acumulação de capital e crescimento econômico.

Mas por que escrevo essa sublime função dos bancos no pretérito? Justamente porque ela foi desvirtuada e hoje não é nem de perto a principal fonte de receitas dos mesmos.

História do dinheiro

Antes de iniciarmos uma breve passagem da história de como chegamos ao sistema bancário que temos hoje, é preciso entender o surgimento do dinheiro. O dinheiro surgiu para solucionar dois problemas básicos entre a troca de produtos. O primeiro é o da divergência de desejos, onde nem sempre o indivíduo que queria trocar uma determinada mercadoria, estava disposto a receber outra. Exemplo, um caçador que gostaria de trocar sua caça por roupas, nem sempre conseguia alguém disposto a realizar essa troca. Seja porque a caça não era o animal que o vendedor de roupas queria, ou talvez o tamanho do animal abatido não satisfazia a necessidade do vendedor. Enfim, a discordância na troca de mercadorias era comum e geravam problemas de liquidez entre os comerciantes.

O segundo problema era o da comodidade, imagine ter que carregar por aí seus produtos que gostaria que fossem trocados por outros. Nada conveniente. Tendo esses problemas em mente, as pessoas perceberam em determinado momento que ao invés de trocarem diretamente as mercadorias que queriam, poderiam usar outros produtos de fácil comercialização como moeda de troca. Essas moedas de troca facilitariam a mensuração de preço de cada mercadoria e dariam liquidez a todo produto. Ao longo da história vários objetos foram usados como moeda de troca, como sal, grãos e até facas. Com o passar do tempo, metais preciosos como prata e ouro começaram a tomar esse lugar, justamente por serem valiosos, resistentes, muito demandados e fáceis de carregar e transportar.

História do sistema bancário

Os primeiros protótipos de bancos datam de 2000 AC na Assíria e Suméria, onde pessoas começaram a cobrar taxas por manter produtos em lugares seguros e realizar alguns empréstimos de grãos entre comerciantes que transportavam mercadorias. Mas foi apenas em meados do século XV que o sistema bancário começou a tomar a forma mais parecida com o que temos hoje. Iniciados na Itália Renascentista, os chamados primeiros bancos modernos ganharam esse nome justamente pelas trocas serem realizadas em uma mesa, ou banca, daí a criação do nome banco.

Esses primeiros bancos modernos desempenhavam exatamente a função que descrevi no início deste texto, atuando como intermediadores entre poupadores e tomadores de empréstimo. Os poupadores depositavam suas moedas no banco, e este lhes entregava um papel como uma forma de comprovante, para que o indivíduo pudesse retirar mais tarde. Logo esses papéis ganharam popularidade e começaram a ser usados na compra, venda e troca de mercadorias, devido à comodidade de não necessitar ir até o banco retirar suas moedas.

Diante disso, os donos dos bancos logo começam a reparar que, com a popularidade do uso desses papéis, poucas pessoas realmente iam até o banco requisitar suas moedas. Sendo assim, os banqueiros afim de lucrarem mais, começam a emprestar os depósitos por um período maior que o combinado com o depositante, sem o consentimento dos mesmos, ou até mesmo emprestavam papéis de comprovantes de depósitos que sequer existiam fisicamente. Aqui temos uma primeira amostra do que chamamos do sistema de reservas fracionárias, no qual o banco deixa apenas uma fração do montante depositado como reserva e ainda permite que o poupador solicite o resgate quando quiser.

Esse sistema tinha sucesso por limitado período de tempo, justamente porque poucas pessoas iam retirar suas moedas, devido a popularidade do papel comprovante de depósito. E como os bancos possuíam muitas reservas, os poucos que solicitassem seriam atendidos. O sucesso acabava quando uma maioria de pessoas decidia solicitar suas moedas de volta, desse modo acabavam com a liquidez dos bancos e os levavam à falência. Cabe ressaltar aqui que nessa época os banqueiros literalmente colocavam suas cabeças em risco ao trabalharem com esse sistema, diferentemente do que temos hoje.

O atual sistema bancário

Após mais de 500 anos da criação dos primeiros bancos modernos, devemos ter aprendido muitas lições e agora vivenciamos um sistema bancário eficaz e seguro, certo? A resposta é um retumbante não. Pior, usando as palavras do ex-presidente do Banco da Inglaterra Mervyn King: “Dentre todas as maneiras de se organizar o sistema bancário, a pior é justamente a que temos hoje”.

O sistema que temos hoje exige que os bancos depositem as reservas fracionárias no Banco Central, essa porcentagem gira em torno de 10% nos EUA por exemplo. O problema é que os depósitos nos bancos hoje em dia, são eles mesmos que criam! Sim, por mais bizarro e impressionante que isso possa ser, os bancos simplesmente possuem o privilégio legal de criar dinheiro do nada, emprestarem esse dinheiro e ganharem juros em cima.

É importante lembrar também que esse dinheiro criado pelos bancos são meramente dígitos eletrônicos, eles não são lastreados em quantidades físicas equivalentes. Os bancos não precisam remover os dígitos eletrônicos da conta de um poupador para transferir para a conta de um empreendedor/investidor. Os bancos simplesmente criam os dígitos na conta desse empreendedor enquanto liberam irrestritamente o acesso do poupador aos dígitos eletrônicos dele.

Faça o desafio um dia e tente ir ao seu banco solicitar um resgate de uma quantia considerável de dinheiro físico. Levará dias e ainda terá de passar por diversas burocracias. Isso porque o Banco Central terá primeiro de imprimir essa solicitação, pois o que você vê em sua conta corrente são meros dígitos eletrônicos. E se muitas pessoas decidirem retirar seu dinheiro? Nesse caso haverá uma percepção geral da insolvência dos bancos, os últimos não conseguirão retirar um centavo e o banco irá falir. Um caso recente de episódio como esse aconteceu na crise de 2008, período no qual as pessoas entraram em desespero e foram correndo retirar suas economias do banco inglês Northern Rock, resultado? O banco faliu.

Todo esse processo é um dos principais motivos da perda de poder de compra da população global. Tendo os bancos acesso livre para criar crédito, os Bancos Centrais do mundo inteiro possuem o objetivo de tentarem não deixar os bancos insolventes. Deste modo, imprimem dinheiro a rodo e nos presenteiam com uma feroz inflação monetária.

 

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