Como a crise de 2008 foi causada pelo governo americano

crise 2008
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Completamos agora em 2018, dez anos de quando o mundo tomou conhecimento da última crise financeira americana. Popularizada como crise dos subprimes, a mesma teve seu real início em agosto de 2007 quando correntistas iniciaram uma corrida ao banco inglês Northern Rock, levando o mesmo a falência.

Originada pelo estouro de uma bolha imobiliária, a crise é vasta e erroneamente usada como exemplo de como os mercados falham e necessitam de ajuda do governo para se reerguer. Mas e se eu lhe dissesse que o verdadeiro culpado pela crise foi justamente o governo Americano?

Entendendo Fannie Mae e Freddie Mac

O leitor certamente deve lembrar dos nomes Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) e Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Corporation). Duas empresas pivôs da crise que nominalmente eram privadas, mas atendiam apenas a políticas do governo federal. Ambas ainda existem, mas ganharam o destaque por terem sido “estatizadas” após a crise.

Fannie e Freddie, exclusivamente voltadas ao mercado imobiliário, atuavam para garantir liquidez ao mercado de hipotecas. Essas empresas não realizavam empréstimos para ninguém, elas simplesmente compravam os empréstimos imobiliários que as pessoas realizavam nos bancos. Em um exemplo claro, um indivíduo ia até um banco solicitando dinheiro para comprar um imóvel, o banco concedia e criava dígitos eletrônicos em sua conta. Conforme expliquei no artigo sobre o funcionamento do atual sistema bancário, para todo “depósito” (dígito eletrônico criado), um banco deve fazer um depósito compulsório no Banco Central. Esse sistema limita, mesmo que de maneira muito sutil, que bancos saiam distribuindo dinheiro a rodo.

A fim de fugir dessa limitação, os bancos começaram a vender esses empréstimos à Fannie e Freddie. Nesse ato, as hipotecas passavam diretamente do banco para as duas empresas, livrando o banco da limitação de concessão de empréstimos. Os bancos então recebiam o dinheiro da hipoteca e não mais precisavam se preocupar com a inadimplência dos tomadores de empréstimo. Deste modo, Fannie e Freddie atuavam como mediadores dos indivíduos para com os bancos, eram elas quem agora deveriam se preocupar com o pagamento das hipotecas. Vejam bem, as duas empresas davam total respaldo para que os bancos pudessem conceder empréstimos à vontade.

Não bastando isso, Fannie e Freddie começaram a empacotar essas hipotecas e as venderem para investidores. Como eram duas empresas “escoradas” pelo Banco Central americano, os investidores sabiam que se as pessoas dessem calotes nas hipotecas, Fannie Freddie cobririam. E se caso elas não dessem conta, o governo americano daria jeito de garantir os valores. Com toda essa proteção, os títulos lastreados nessas hipotecas eram a galinha dos ovos de ouro de muitos investidores e recebiam classificação máxima pelas agências de classificação de risco.

Esse processo de empacotamento de ativos para venda a investidores é chamado de securitização, e o problema destes foi que misturavam ativos bons com ruins, nesse caso, mutuários com bom histórico de pagamentos com mutuários inadimplentes. Aqui vale ressaltar a falha das agências de classificação de risco ao darem nota máxima para esses ativos, não vou nem entrar no mérito de que as três agências que erraram são altamente regulamentadas pela SEC americana.

A primeira intervenção estatal

Sabendo como atuavam as empresas Fannie Mae e Freddie Mac, e como elas facilitavam os empréstimos desenfreados dos bancos, levanta-se o questionamento: por que ainda assim houve tantos subprimes? (os subprimes refere-se justamente a empréstimos realizados para indivíduos ou instituições com histórico ruim de pagamento). Aqui entra na história a primeira intervenção estatal que fomentou a crise.

No ano de 1992 o Federal Reserve de Boston publica um estudo que afirma ter encontrado evidências de que as minorias recebiam menos empréstimos que as maiorias. Por meio desse estudo, o governo federal chega rapidamente à conclusão de que os bancos estavam praticando uma espécie de discriminação. Com essa conclusão, já em 1993 o governo decide retomar a lei chamada Community Reinvestment Act, criada nos anos 70. Essa lei basicamente deixava os bancos à mercê de processos por discriminação caso eles não emprestassem para minorias em um volume que satisfizesse o governo.

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Oferta de empréstimo sem comprovação de renda nos EUA

A partir disso o governo passa a requisitar que Fannie Mae e Freddie Mac comecem a devotar uma parcela de suas compras de hipotecas, para as advindas de pessoas de baixa renda. Já em 1995 o governo passa a pressionar ainda mais os bancos para realizarem empréstimos imobiliários, sem sequer verificar critérios e históricos mínimos dos mutuários.

A segunda intervenção estatal

Com a liberdade dos bancos realizarem empréstimos à vontade, por meio do relaxamento de critérios necessários imposta pelo governo e com Fannie Mae e Freddie Mac facilitando todo o processo, a demanda por imóveis começa a explodir e consequentemente os preços dos imóveis também. E com essa contínua subida de preços o circo para a especulação estava armado. É nesse momento que a segunda e mais importante intervenção estatal começa a dar um tamanho colossal à bolha imobiliária, tudo por meio do Banco Central americano, o Fed.

Após o estouro da bolha das empresas .com o Fed, temendo uma recessão, inicia uma acelerada injeção de dinheiro na economia. Essa injeção ganha ainda mais força após os ataques de 11 de setembro, e leva artificialmente as taxas de juros a níveis baixíssimos. A taxa de juros básico nos EUA caiu de 6,5% para 1%, porcentagem que se manteve até meados de 2004.

Toda essa expansão monetária deixou os bancos americanos repletos de dinheiro para realizar empréstimos. E devido as medidas implementadas referente às hipotecas, a maioria desses empréstimos foram justamente para o mercado imobiliário. De 2000 a 2008 o Fed jogou nada mais nada menos que U$ 3,5 trilhões para a economia, dos quais U$ 2 trilhões foram para empréstimos imobiliários. Cria-se aqui o cenário perfeito para uma bolha imobiliária, vejamos: temos o crédito liberado para empréstimos, temos os empréstimos subprimes, temos a demanda explodindo, a taxa de juros baixa, e a especulação.

O fim

A partir de 2004 o Fed começa a reduzir a injeção de dinheiro na economia e como consequência as taxas de juros começam a subir, saindo de 1% para 5,25%. Agora imagine por um segundo os empréstimos feitos para os indivíduos de baixa renda, aumentando os juros das parcelas em cinco vezes. Começam a surgir os calotes e a inadimplência estoura, a demanda esfria e os preços dos imóveis começam a cair, os especuladores começam a literalmente abandonar os imóveis e o colapso inicia.

É nítido que o intervencionismo teve papel fundamental na criação da bolha imobiliária americana, e no consequente estouro da mesma. Também é correto afirmarmos que após o estouro da crise, foi o mesmo Fed que salvou alguns bancos da falência, mas ao custo de novamente uma monstruosa expansão monetária. E como essa nova expansão iniciada em 2008 irá nos afetar é assunto para um próximo artigo.

File photograph shows staff standing in a meeting room at Lehman Brothers offices in London
Funcionários do Lehman Brothers recebendo a notícia da falência do banco em 2008
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