O mito do socialismo nórdico

A expressão “países nórdicos” é usada para se referir aos países da Europa Setentrional, que se constitui pela Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca. As Ilhas Faroé, o arquipélago Aland e a Groenlândia também compõe o mesmo fator geográfico, mas comumente não são mencionados, assim como neste artigo.

Frequentemente usados como exemplos de países bem sucedidos que adotaram um modelo econômico com alta carga tributária e assistencialismo, os países nórdicos surgem como uma carta na manga para todo amante do estado em qualquer discussão. Figurando no topo dos rankings de índice de desenvolvimento humano (IDH), esses países também possuem uma das mais altas cargas tributárias do mundo e parecem desafiar as lógicas mercadológicas.

Sim, o imposto de renda sobre pessoa física nos países nórdicos é muito alto. Para sustentar os altos gastos públicos, a Noruega tributa em 38,5% seus cidadãos, Islândia em 46,3%, a Finlândia em 51,6%, Dinamarca em 55,8% e a Suécia em impressionantes 61,85%. Mas como é possível esses países ainda prosperarem sufocando tanto a população em impostos?

As liberdades nórdicas

De modo geral, se analisado o ranking de liberdade econômica publicado pela Heritage Foundation, os países nórdicos ainda que bem colocados, não figuram no topo. A Finlândia se encontra na 26ª posição, a Noruega na 23ª posição, a Suécia na 15ª posição, a Dinamarca na 12ª e Islândia na 11ª colocação. O motivo pelo qual suas colocações não condizem com seus altos IDH’s, é justamente pelo quesito número dois analisado pela Heritage, o tamanho de seus governos. Leia mais sobre a relação entre qualidade de vida e liberdade econômica.

Para compensar suas colocações no grupo classificado como “predominantemente livres” no ranking, os países nórdicos pontuam bem nos outros três principais quesitos analisados. No primeiro (Estado de Direito), têm-se como absolutos os direitos de propriedade nos países nórdicos. Seus governos, apesar de seu tamanho, possuem uma elevada integridade cultural e a efetividade judicial da Noruega, Finlândia, Suécia e Dinamarca está entre as 15 melhores do mundo, com a Islândia não tão abaixo na 24ª posição.

No quarto quesito (Abertura de mercado), novamente temos os nórdicos bem colocados. Todos possuem baixíssimas restrições para investimentos estrangeiros e suas tarifas de importação são próximas de zero. Promovendo desta forma um ambiente favorável ao comércio internacional. Mas é no terceiro quesito (Eficiência regulatória) que temos o segredo da prosperidade nórdica, apesar de um governo inchado e com elevada carga tributária.

Liberdade para se fazer negócios

Segundo o ranking de liberdade econômica publicado pela Heritage, na categoria liberdade para se fazer negócios, a Dinamarca está em 3º lugar, a Noruega em 8º, a Finlândia em 9º lugar, a Suécia em 11º lugar e a Islândia em 10º lugar. A carga tributária sobre as empresas nos países nórdicos, é uma das menores do mundo. A taxação de Pessoas Jurídicas na Dinamarca é de 22%, na Finlândia 20%, na Noruega 24%, na Suécia 22% e na Islândia 20%. Nos Estados Unidos por exemplo, antes da reforma tributária de Trump, o imposto sobre empresas era de 35%, e só agora possui uma taxação de valor nórdico (21%).

Além da baixa tributação de empresas, os nórdicos desfrutam também de um ambiente altamente desregulamentado e muito pouco burocrático. Em média para se abrir uma empresa na Finlândia levam-se 14 dias, na Islândia 11,5 dias, na Suécia 7 dias, na Noruega 4 dias e na Dinamarca 3,5 dias. A baixa burocracia também se aplica ao mercado de trabalho, não há salário mínimo estabelecido em nenhum dos países nórdicos. Custos com indenizações em demissões são praticamente inexistentes, não há restrições sobre horas extras e não existe uma CLT nos países nórdicos. Ainda, na Suécia e Noruega não há impostos sobre heranças.

Em outro ranking sobre a facilidade de se fazer negócios, o Doing Business Index publicado pelo World Bank, também comprova a liberdade e desregulamentação dos países nórdicos. O índice coloca a Dinamarca em 3º lugar, a Noruega em 8º, a Suécia em 10º, a Finlândia em 13º e a Islândia um pouco mais isolada em 23º lugar. O índice avalia diversos aspectos como, facilidade para se iniciar um negócio, impostos sobre empresas, facilidade em registros, contratos, obtenção de créditos e exportações.

Histórico liberal

Para entendermos como os países nórdicos hoje conseguem prosperar com um estado inchado e assistencialista, é preciso também analisar o contexto histórico de como chegaram até os dias atuais. Para isso, usaremos o exemplo da Suécia para explicar como os nórdicos primeiro enriqueceram com um livre mercado, para só depois adotarem um estado de bem-estar social.

A tabela abaixo mostra ao longo das décadas, o gasto governamental em porcentagem do PIB de alguns países. A Suécia, como pode ser comprovado pelos números, possuía uma porcentagem relativamente baixa, ou seja, um governo enxuto até a década de 70, quando os gastos dobraram e atingiram pouco mais de 60% do PIB do país em 1980.

Aqui é importante frisar que, enquanto tinha seus gastos governamentais controlados, a Suécia prosperou, e muito. De 1850 a 1950 a renda dos suecos aumentou em dez vezes, nesse período de 100 anos, a economia sueca cresceu em média 1,64%, quase o dobro da média mundial e 60% a mais que a Europa no mesmo período. Na década de 50, a Suécia já era o quarto país mais rico do mundo. Obviamente que o não envolvimento nas guerras mundiais influenciou, mas o principal fator determinante de tanto progresso foi com certeza um estado mínimo e livre mercado. E isso se comprova pelas medidas adotadas nas décadas seguintes.

Como visto na tabela acima, contrariando a receita de um progresso exemplar, nas décadas de 70 e 80 os gastos governamentais suecos explodiram. Com o intuito de fugir das consequências da crise do petróleo, a Suécia decidiu por adotar um modelo de governo assistencialista e intervencionista. Diversas leis trabalhistas foram introduzidas, setores foram subsidiados pelo governo, benefícios governamentais criados e consequentemente para se sustentar tudo isso, aumentos expressivos das alíquotas de impostos.

De 1970 a 1990 a carga tributária sueca saiu de 31% para 50%, e chegou ao cúmulo de, em alguns casos, chegar a 102%. Exatamente, houve casos de cidadãos suecos que foram obrigados a pagar impostos maiores do que sua própria renda. O resultado desse arranjo não poderia ser diferente, de um país que adentrou os anos 70 como o quarto mais rico do mundo, chegou aos anos 90 já na 14ª posição e enfrentou uma grave recessão após dois anos de gastos governamentais desenfreados. Na década de 90, para financiar os elevados gastos públicos o banco central inundou o mercado com crédito com uma explosão de 975% na concessão de empréstimos, e a crise se estendeu por quatro anos. Entenda como a crise de 2008 também foi alavancada pelo banco central americano.

Para fugir da recessão novamente a Suécia recorreu à redução do estado. De 1990 para cá, a Suécia reduziu de 1,7 milhões de funcionários públicos, para 1,3 milhões e aumentou os funcionários do setor privado de 2,8 milhões para 3,2 milhões. Além disso, passou a adotar as medidas liberais para seu mercado de trabalho já discutidas neste texto, o que deixou a economia sueca respirar.

Os reflexos negativos de se inchar os gastos públicos são notórios na história da Suécia, o gráfico abaixo expõe o PIB per capita sueco ao longo das décadas. É interessante notar que o decrescimento começa a ocorrer justamente quando o governo adotou medidas intervencionistas na década de 70.

Caso semelhante também é possível perceber na Dinamarca. O governo dinamarquês optou pelas mesmas medidas intervencionistas na década de 70, e o reflexo em seu crescimento pré e pós aumento de gastos governamentais é nítido no gráfico abaixo.

Diferente deste cenário temos apenas a Noruega, que devido a suas enormes reservas de petróleo, conseguiu subsidiar o aumento de gastos governamentais ao longo dos anos.

Conclusão

Ao serem usados como exemplo, os esquerdistas omitem dados históricos e desconsideram as liberdades de negócio dos países nórdicos. É desonesto afirmar que esses países possuem índices tão altos de IDH devido ao seu governo inchado, a verdade ao analisar os dados é exatamente a contrária. Os países nórdicos prosperam apesar de seus governos agigantados, pois adotam medidas liberais, possuem baixa carga tributária empresarial, um mercado de trabalho desregulamentado e pouquíssima burocracia. Essas medidas permitem que os países nórdicos tenham competitividade no cenário mundial, produtividade elevada e consequentemente, consigam sustentar, até agora, um estado grande.

Leia mais em:
https://spotniks.com/sabe-aquela-historia-que-a-suecia-e-o-socialismo-que-deu-certo-entao-e-mentira/
https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2161
https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2406

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