Entenda de uma vez por todas o que é Fascismo

“Fascista!”

Você provavelmente já deve ter visto alguém pronunciar ou escrever esse termo. Há décadas usado pela esquerda americana para descrever praticamente todo político Republicano, a palavra descreve todos aqueles simpatizantes/partidários/pertencentes ao fascismo.

Como quase tudo que faz sucesso nas terras do Tio Sam, o termo foi importado pela esquerda brasileira, e ganhou enorme notoriedade nos últimos anos.

Não obstante, no ano de 2018 a pesquisa “o que é fascismo?” apareceu em primeiro lugar no ranking da categoria “o que édivulgado pelo Google Trends.

Segundo a ferramenta Ubersuggest, a pesquisa atingiu um pico de cerca de 3,4 milhões de buscas no mês de Outubro de 2018. Não por coincidência, justo no período das eleições presidenciais.

O que é o Fascismo?

Em resumo, o Fascismo é um sistema político que ganhou notoriedade no regime ditatorial de Benito Mussolini, implementado na Itália em 1922, e que perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial.

O Fascismo possui como principais características:
1) Coletivismo: Os interesses coletivos sempre devem se sobrepor aos interesses individuais.
2) Totalitarismo: O Estado não reconhece o limite de seus poderes. Todo o aspecto da vida do indivíduo é tocado por alguma intervenção estatal.
3) Nacionalismo: Os interesses da Nação estão acima de tudo.
4) Economia planejada: Todo o arranjo econômico é indiretamente influenciado pelo Estado. Absolutamente oposto ao liberalismo econômico.
5) Trabalhismo: Sindicalista e fiscalizador de todas as relações entre patrão e empregado, o Fascismo cria rígidas regras voltadas a “proteção” do elo mais fraco na relação laboral. O Estado atua em todo aspecto da vida no trabalho.
6) Populismo: Centraliza o poder na figura carismática de um líder. Justifica suas ações sempre em prol das massas.

Influências do Fascismo

A origem da ideologia fascista começou a ser traçada em 1880, sob o tema do fin de sciècle, expressão francesa usada para referir-se ao fim do século 19.

As características do tema eram a revolta contra o materialismo, racionalismo, positivismo, a sociedade burguesa e a democracia. O tema via a civilização como em degeneração e crise, e exigia uma solução total, ou seja, uma revolução.

A condenação do individualismo, o ataque ao cristianismo e a ênfase em organizar a sociedade em grupos de mesma hereditariedade, também influenciaram na formação da filosofia fascista.

Há ainda três nomes que posteriormente surgem como influência da ideologia fascista:

1) Charles Maurras: Nacionalista francês que promovia o nacionalismo integral. Este nacionalismo porém, fora modificado pelos fascistas que idealizavam uma forma revolucionária, ao contrário da centralização em um monarca, como queria Maurras.

“Um socialismo liberado do elemento democrático e cosmopolita se encaixa no nacionalismo como uma bela luva se encaixa uma bela mão.” – Charles Maurras [1]

2) Georges Sorel: Também francês, Sorel era um revolucionário e sindicalista. Defendia uma ação sindicalista radical, a fim de alcançar uma revolução e acabar com o capitalismo e a burguesia, através de greves gerais.

“Lenin pode se orgulhar do que seus camaradas estão fazendo; Os trabalhadores Russos estão adquirindo glória eterna na tentativa de realizar o que até então tinha sido apenas uma ideia abstrata…” – Georges Sorel [2]

3) Enrico Corradini: Nacionalista italiano e jornalista. Foi um dos fundadores da Associação Nacionalista Italiana e do jornal L’Idea Nazionale. Corradini foi influenciado pela fusão do nacionalismo de Maurras e o sindicalismo de Sorel. Foi o criador da expressão nacionalismo proletário.

“Nós devemos começar a reconhecer o fato de que existem nações proletárias, assim como classes proletárias; isto é, existem nações cuja condição de vida é subjetiva… ao estilo de vida de outras nações, assim como as são as classes. Esclarecido isso, o nacionalismo deve insistir firmemente em sua verdade: a Itália é, materialmente e moralmente, uma nação proletária” – Enrico Corradini [3]

Entendido as raízes e influencias que serviram como base da formação do fascismo, passamos ao momento de criação dos primeiros movimentos fascistas.

A origem dos primeiros movimentos fascistas, ou fasci, surgiram após a eclosão da primeira guerra mundial em 1914. Evento que causou uma divisão de opiniões na esquerda italiana.

O Partido Socialista Italiano (PSI) – do qual Benito Mussolini era membro e foi editor dos jornais L’Avvenire del Lavoratore (O Futuro do Trabalhador), Lotta di classe (A Luta de Classes) e Avanti! – se opôs a guerra por questões internacionalistas.

Porém, um grande número de sindicalistas revolucionários apoiaram a entrada da Itália na guerra, o que causou uma grande divisão no partido socialista.

E foi dessa divisão, que então surgiram o Fasci d’Azione Internazionalista de Angelo Oliviero Olivetti e o Fasci d’Azione Rivoluzionaria de Benito Mussolini.

Benito Mussolini

Em primeiro lugar, sabe-se que Benito Mussolini ganhou seu primeiro nome em homenagem ao revolucionário mexicano, Benito Juárez. O Pai de Mussolini era conhecido por ser um ferrenho socialista, e foi dele que Mussolini herdou suas primeiras opiniões políticas.

Como explicitado nesse artigo, Mussolini foi membro do Partido Socialista Italiano e editor de alguns jornais socialistas durante anos.

Mussolini publicou algumas obras como Il Trentino veduto da un Socialista (O Trentino visto por um Socialista), e L’amante del Cardinale: Claudia Particella, romanzo storico (A Amante do Cardeal), no qual proferiu duras críticas a igreja católica.

Também publicou Giovanni Hus, il veridico (Jan Hus, verdadeiro profeta), uma biografia do reformista tcheco Jan Hus, que é tido como uma das principais influencias do surgimento da igreja protestante.

Mussolini foi expulso do partido socialista italiano devido as divergências sobre a primeira guerra, conforme mencionei. Criou então o Fasci d’Azione Rivoluzionaria. Mais tarde, alistou-se na guerra, chegou a ser sargento e foi afastado devido a ferimentos oriundos de uma granada.

“Na Itália, camaradas, na Itália havia apenas um socialista capaz de liderar o povo através de um caminho revolucionário, Benito Mussolini.” – Vladimir Lenin [4]

Tido como um dos mais proeminentes socialistas da Itália, Mussolini teve toda sua base de pensamento influenciada, desde pequeno, pela mente revolucionária.

Giovanni Gentile

Sabemos que Benito Mussolini desenvolveu o fascismo na prática. Mas você sabe quem desenvolveu o fascismo na teoria?

Nome frequentemente esquecido e omitido, o fascismo teve sua base intelectual desenvolvida por um homem chamado Giovanni Gentile (1875-1944), que se autointitulava como filósofo do fascismo.

Gentile foi um professor, filósofo e político fascista, que assumiu o cargo de ministro da educação durante o governo de Mussolini. Gentile foi o escritor fantasma por trás de “A doutrina do fascismo”, escrito juntamente com Mussolini.

“O fascismo, por outro lado, concebe filosofia como uma filosofia da prática (praxis). Esse conceito foi produto de certas inspirações Marxistas e Sorelianas (muitos fascistas e o próprio Duce, receberam sua primeira educação intelectual na escola de Marx e Sorel. – assim como influência de doutrinas contemporâneas do idealismo Italiano, no qual o fascismo extraiu substância e atingiu maturidade.” – Giovanni Gentile [5]

Gentile acreditava que existiam dois tipos de democracia, que eram opostos:
Democracia liberal: Individualista, muito centrada nas liberdades e direitos pessoais, e portanto, egoísta.
Democracia verdadeira: Os indivíduos se subordinam, de boa vontade, ao estado.

“Para o fascismo… o estado e o indivíduo são um só, ou melhor, talvez, “estado” e “indivíduo” são termos inseparáveis em uma síntese necessária” – Giovanni Gentile [6]

Gentile foi basicamente o homem que escreveu as palavras que Mussolini pôs em prática. O “esquecimento” de seu nome para muitos historiadores, é uma forma de evitar o fato de que o homem por trás do filosofia fascista, era um socialista que apenas trocou o internacionalismo comunista, pelo nacionalismo.

“É necessário distinguir o socialismo do socialismo – na verdade, a ideia e a ideia entre a mesma concepção socialista, de modo a distinguir aqueles que são inimigos do fascismo. É bem sabido de que o sindicalismo soreliano, do qual o pensamento e método político do fascismo emergiu – concedeu a si mesmo uma interpretação genuína do comunismo Marxista. A dinâmica concepção da história, no qual a força como violência é essencial, é uma origem Marxista inquestionável…” – Giovanni Gentile [7]

Linha do tempo do Fascismo

Economia Fascista

O arranjo econômico fascista pode ser resumido como uma economia planejada, porém, indiretamente influenciada pelo estado. Aqui talvez esteja a principal diferença para com o modelo econômico socialista, no qual o estado influencia diretamente.

No fascismo o governo carteliza o setor privado em um conluio com grandes empresas. Soou um sino com os nomes de grandes empreiteiras brasileiras?

O sistema econômico subsidia grandes empresários com conexões políticas, e atua com rígidas regulamentações e leis estatais. Os sindicatos se tornam poderosas instituições na economia fascista, e todo aspecto da vida do trabalhador é regulamentado.

“Três quartos da economia italiana, industrial e agrícola, está nas mãos do estado. E se eu ousar apresentar à Itália o capitalismo de estado ou o socialismo de Estado, que é o lado inverso da medalha, terei as condições subjetivas e objetivas necessárias para fazê-lo.” – Benito Mussolini [8]

Intervenções econômicas e enormes gastos governamentais são amparados por infinitos empréstimos e impressão de moeda por um banco central. Tudo isso trazendo a inevitável inflação, congelamento de preços e o posterior reforço do totalitarismo para evitar mercados negros.

“A linha entre o fascismo e o socialismo fabiano é muito tênue. Socialismo fabiano é o sonho. Fascismo é o socialismo fabiano mais um ditador inevitável.” – John T. Flynn [9]

Você deve estar pensando que esse arranjo econômico é muito parecido com o que temos no Brasil e vários outros países. E é verdade. A atual economia de centenas de países se aproxima muito com o fascismo.

A economia fascista é o total oposto do que é o liberalismo econômico.

Espectro político do Fascismo

Se você digitar agora no Google: “Fascismo é de esquerda ou direita?” a grande maioria das respostas que virão, tratará de responder prontamente: é de extrema-direita.

Existe também muitos historiadores que preferem colocar como uma “terceira via“, ou seja, nem direita e nem esquerda. E há também uma minoria que acredita ser de esquerda.

Porém, ao se analisar ponto por ponto as características do sistema fascista, você vai encontrar elementos tanto de esquerda, quanto de direita.

Entretanto a análise que acho essencial se fazer, é pelas culturas adotadas pela direita e pela esquerda, sendo elas:

Cultura conservadora: O mundo é complexo, é preciso haver cautela com mudanças, respeitar valores éticos e morais do passado. Considerar as tradições, costumes, e leis na hora de realizar reformas é essencial. A mudança deve ser não violenta, deve-se preservar aquilo que funciona e reformar o que não funciona. Cultura da direita.

Cultura revolucionária: Desrespeito ao passado, os valores éticos e morais são antiquados, e é preciso reformar isso o mais rápido possível. Romper com estruturas sociais, como família, propriedade e religião é essencial. A mudança tem que ser total, violenta e imediata. Cultura da esquerda.

“No entanto, o estado fascista é único, uma criação original. Não é reacionário, mas revolucionário…” – Benito Mussolini [10]

Quero que agora você volte ao início desse texto e repare quantas vezes a palavra “revolução” ou “revolucionário (a)” aparecem grifadas.

Fica claro de que a cultura revolucionária é a raiz no fascismo.

Conclusão

O fascismo é um fenômeno político complexo, que resulta em diversas opiniões divergentes. A opinião mais difundida no entanto, é a de que foi um sistema político de extrema-direita. A qual discordo.

“O que é fascismo? É socialismo emancipado da democracia” – Charles Maurras [11]

O fascismo foi o grande vilão da segunda guerra mundial e suas ditaduras cometeram as piores barbáries que o mundo já presenciou. O rótulo de fascista é algo que nem esquerda e nem direita querem levar. Apesar de grupos supremacistas gostarem.

Chamar alguém de fascista se tornou algo muito banal hoje, e a maioria desconhece totalmente as características, as influências, as origens e os principais nomes do fascismo.

“Quando trazido junto a órbita do estado, o fascismo reconhece as reais necessidades as quais deram origem ao socialismo e ao sindicalismo, dando-lhes o verdadeiro peso no corporativismo ou no sistema corporativista no qual interesses divergentes são coordenados e harmonizados na união do estado.” – Benito Mussolini [12]

Se analisarmos todas suas nuances, fica claro que o fascismo herdou a maioria de suas características do socialismo. Os fascistas surgiram após uma divisão no partido socialista italiano. A cultura revolucionária é seu cerne, e não há como negar.

Em ambos os sistemas, a classe proletária é o foco de suas ações e propaganda. No socialismo há a classe operária internacional, no fascismo há as nações proletárias.

“Do ponto de vista das liberdades humanas fundamentais, há pouco para escolher entre comunismo, socialismo, e nacional socialismo. Estes todos são exemplos de estados totalitários e coletivistas… e em sua essência, o socialismo total é o mesmo que o comunismo, mas dificilmente se difere do fascismo.” – Ivor Bulmer-Thomas [13]

O socialismo e o fascismo partem de uma mesma árvore genealógica, e se separaram apenas no fato de um ter foco internacional e o outro, um foco nacional. Ambos são inimigos do liberalismo, do individualismo e do conservadorismo; ambos são coletivistas e revolucionários.

O fascismo é um socialismo nacional.

Como iniciamos este artigo mostrando uma pesquisa de termo no Google, encerro convidando o leitor a fazer o mesmo com o termo: “nacional socialismo” e entenda a conexão.

“Marxismo levou ao fascismo e nacional socialismo, porque, em sua essência, ele é fascismo e nacional socialismo.” – Frederick Augustus Voigt [14]

Fontes das citações

[1] – Douglas R. Holmes. Integral Europe: fast-capitalism, multiculturalism, neofascism. Princeton, New Jersey, US: Princeton University Press, 2000. Pp. 60.
[2] – “For Lenin,” Soviet Russia, Official Organ of The Russian Soviet Government Bureau, Vol. II, New York: NY, January-June 1920 (April 10, 1920), p. 356
[3] – Classi proletarie: socialismo; nazioni proletarie: nazionalismo – Enrico Corradini, 1910.
[4] – Revolutionary Fascism, Erik Norling, Lisbon, Finis Mundi Press (2011) p. 28. Lenin falou essa frase para Nicola Bombacci durante uma recepção no Kremlin.
[5] – “The Philosophy of Fascism,” publicado em inglês pela primeira vez no Spectator, Novembro de 1928, pp. 36-37. Reimpresso em Origins and Doctrine of Fascism, A. James Gregor, tradutor e editor, Transaction Publishers (2003) p. 33
[6] – Origins and Doctrine of Fascism, trad. A. James Gregor, Transaction Publishers (2011), p. 25
[7] – Che cosa è il fascismo: Discorsi e polemiche (“What is Fascism?”), Florence: Vallecchi, (1925) pp. 42-45, 47-48, 49-51, 56.
[8] – Discurso de Mussolini na Câmara de Deputados, 26 de Maio de 1934.
[9] – The Road Ahead: America’s Creeping Revolution (1940) – John T. Flynn
[10] – Citado em “The Political and Social Doctrine of Fascism”, Jane Soames tradutor, Hogarth Press, London, edição autorizada (1933) p. 23
[11] – Charles Maurras, citado em Russia Under the Bolshevik Regime by Richard Pipes(1995) p. 240.
[12] – “The Doctrine of Fascism” (1935 version), Firenze: Vallecchi Editore, p.15.
[13] – Ivor Bulmer-Thomas, The Socialist Tragedy (1951), p. 241.
[14] – Frederick Augustus Voigt, in Unto Cæsar (1939), p. 95.

Fontes para elaboração do artigo

Sites:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fascismo
https://www.britannica.com/topic/fascism
http://sensoincomum.org/tag/fascismo/
https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1343
https://www.econlib.org/library/Enc/Fascism.html
https://mises.org/library/mises-fascism-democracy-and-other-questions
https://mises.org/library/what-fascism
https://en.wikiquote.org/wiki/Giovanni_Gentile
https://en.wikiquote.org/wiki/Benito_Mussolini
https://en.wikiquote.org/wiki/Comparison_of_Fascism_and_Socialism
https://en.wikiquote.org/wiki/Fascism

Livros:
A doutrina do Fascismo – Benito Mussolini
As We go Marching – James T. Flynn
Giovanni Gentile: Philosopher of Fascism – A. James Gregor
The Big Lie: Exposing the Nazi Roots of the American Left – Dinesh D’Souza

World Fascism: A historical encyclopedia – Roger Griffin

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