Quatro décadas das pessoas mais ricas do mundo

A revista Forbes divulgou recentemente a edição de 2019 de seu tradicional ranking de bilionários. Com poucas mudanças no top 10, vimos à saída dos irmãos Koch e a entrada de Larry Page, CEO da Alphabet (que detém o Google), e de Michael Bloomberg, dono da empresa de comunicações que leva seu sobrenome.

Assim como em 2018, Jeff Bezos continua na ponta, seguido por Bill Gates e Warren Buffett. Essa aparente falta de mudanças relevantes na lista de bilionários, traz ao leitor uma impressão de que a riqueza dessas pessoas é estática, e que não importa o que aconteça, suas fortunas crescem sem parar.

Essa rasa análise, constantemente funciona como combustível para o discurso de demonização da riqueza, utilizado pela esquerda.

Como o “economista” Thomas Piketty escreve em seu livro:

“Uma das lições mais impactantes do ranking da Forbes é que, a partir de um determinado valor de riqueza, todas as grandes fortunas têm suas origens ou na herança ou no valor gerado por uma empresa já estabelecida no mercado, e crescem a taxas extremamente elevadas — independentemente de se seu proprietário trabalha ou não trabalha.”

Mas e se essa análise fosse feita não anualmente, mas sim sobre décadas? A fim de evidenciar esse erro de ponto de vista, o Economista Visual foi atrás das últimas quatro décadas do ranking de homens mais ricos do mundo.

Voltamos a 1989, temos então na lista dos dez maiores bilionários:

1. Yoshiaki Tsutsumi (Japão, Ferroviário)
2. Taikichiro Mori (Japão, Imobiliário)
3. Sam Walton (EUA, Varejo)
4. Reichmann (Canadá, Imobiliário)
5. Shin Kyuk-ho (Coréia do Sul, Alimentício)
6. Hirotomo Takei (Japão, Imobiliário)
7. Kitaro Watanabe (Japão, Imobiliário)
8. Haruhiko Yoshimoto (Japão, Imobiliário)
9. Hans & Gad Rausing (Suécia, Embalagens)
10. Eitaro Itoyama (Japão, Imobiliário)


Pergunto ao leitor, você já ouviu falar nesses nomes? Talvez exceto por Sam Walton, fundador do Walmart, dificilmente conhece-se o restante daqueles que eram os maiores bilionários do mundo na época.

É interessante notar a predominância da nacionalidade Japonesa no ranking de 89, e do setor imobiliário como origem das fortunas. Muito em decorrência da grande bolha que atingiu o Japão na época.

Pulemos uma década, chegamos ao fim do milênio, 1999. A lista dos dez maiores bilionários então:

1. Bill Gates (EUA, Tecnologia)
2. Warren Buffett (EUA, Investimentos)
3. Paul Allen (EUA, Tecnologia)
4. Steven Ballmer (EUA, Tecnologia)
5. Philip Anschutz (EUA, Investimentos)
6. Michael Dell (EUA, Tecnologia)
7. Robson Walton (EUA, Varejo)
8. Alwaleed Bin Talal (Arábia Saudita, Diversos)
9. Theo & Karl Albrecht (Alemanha, Varejo)
10. Li Ka-shing (Hong Kong, Diversos)


Alguns nomes familiares já aparecem, temos Bill Gates e Warren Buffett, presentes até hoje no topo das maiores fortunas. Além deles, temos nomes mais comuns ao leitor que acompanha o noticiário econômico, como Michael Dell, criador dos computadores que carregam seu nome.

Vejam que, da lista de 1989, ninguém aparece no ranking dez anos depois. Ou seja, houve uma renovação de 100% no ranking.

Também é notável a ausência de pessoas de nacionalidade Japonesa, predominante dez anos antes. Os ramos das fortunas também mudam completamente, vemos a Tecnologia tomando a maioria, e já não há mais nenhum bilionário do ramo Imobiliário entre os dez.

Avancemos mais dez anos, essa é a lista de 2009:

1. Bill Gates (EUA, Tecnologia)
2. Warren Buffett (EUA, Investimentos)
3. Carlos Slim (México, Diversos)
4. Lawrence Ellison (EUA, Tecnologia)
5. Ingvar Kamprad (Suécia, Moveleiro)
6. Karl Albrecht (Alemanha, Varejo)
7. Mukesh Ambani (Índia, Diversos)
8. Lakshmi Mittal (Índia, Aço)
9. Theo Albrecht (Alemanha, Varejo)
10. Amancio Ortega (Espanha, Varejo)


Nomes bem mais comuns ao público, mas diversas mudanças da última década. Temos ainda Bill Gates e Warren Buffett na ponta, porém seis novos entrantes no top 10. Uma renovação de 60% no ranking. Também vemos novas nacionalidades e a perda de relevância do setor de Tecnologia.

É importante frisar que 2009 sofreu diretamente os efeitos da crise americana dos subprimes, evidenciado pela grande ausência de Americanos na lista, e pela enorme perda de capital de todos os integrantes do ranking.

Chegamos enfim a 2019, essa é a lista dos homens mais ricos do mundo:

1. Jeff Bezos (EUA, Tecnologia)
2. Bill Gates (EUA, Tecnologia)
3. Warren Buffett (EUA, Investimentos)
4. Bernard Arnault (França, Artigos de luxo)
5. Amancio Ortega (Espanha, Varejo)
6. Mark Zuckerberg (EUA, Tecnologia)
7. Larry Ellison (EUA, Tecnologia)
8. Larry Page (EUA, Tecnologia)
9. Carlos Slim (México, Diversos)
10. Sergey Brin (EUA, Tecnologia)


Cenário totalmente diferente de 2009, seis novos entrantes, totalizando uma renovação de 60% entre os dez mais ricos do mundo. Temos novamente o setor de Tecnologia predominando, e um “novo entrante” assumindo o topo do ranking.

Mas o que aconteceu com os bilionários da década de 80?

Iniciemos por Yoshiaki Tsutsumi, homem mais rico do mundo em 1989, com uma fortuna estimada em 15 bilhões de dólares na época. A última vez em que apareceu no ranking da Forbes, foi em 2006, com uma fortuna de 1,2 bilhão de dólares. Sua fortuna continuou a diminuir e hoje Tsutsumi sequer aparece no ranking geral.

Segundo no ranking de 89, Taikichiro Mori faleceu pouco tempo depois em 1993. Sua fortuna foi herdada pelos dois filhos que continuaram os negócios do pai. Um deles também já faleceu, e o outro, Akira Mori, assume atualmente o posto de CEO da empresa. Sua fortuna é estimada em 3,8 bilhões de dólares.

Ainda que relevante, é bem distante dos 14,2 bilhões de dólares de seu pai, na época. Em uma correlação direta, houve uma redução de cerca de 70% na fortuna da família.

Sam Walton, terceiro na lista, também faleceu logo depois, em 1992. Sua fortuna porém, foi muito bem gerida pelos filhos herdeiros, que a multiplicaram. Hoje a família Walton orgulha-se em ser a família mais rica do mundo, e isso não é à toa.

O Walmart se tornou a maior varejista do mundo, empregando mais de 2 milhões de pessoas no mundo todo. Oferecendo produtos a preços baixos, a Walmart se tornou o que é por melhorar a vida dos consumidores. Estima-se que a gigante varejista economiza com suas ofertas, aproximadamente 2500 dólares por ano para uma família de quatro membros nos EUA.

Reichmann, número quatro no ranking em 1989, faleceu em 2013 com uma fortuna estimada em 100 milhões de dólares. Comparado ao seu auge, houve uma redução de aproximadamente 98% de seu patrimônio.

Japoneses eram maioria em rankings de bilionários da década de 80

Shin Kyuk-ho, quinto no ranking de 1989, está com 96 anos e foi condenado a prisão em 2017 por fraude. Seu filho mais novo está no comando do conglomerado, e atualmente possui uma fortuna de 1 bilhão de dólares, segundo a Forbes. Comparado ao fim da década de 80, houve uma redução aproximada de 87% em sua fortuna.

Hirotomo Takei, sexto no ranking de 1989, apareceu a última vez na Forbes em 1991 com uma fortuna de 4,5 bilhões de dólares. Um ano depois, foi preso por sonegação de impostos. Hirotomo declarou falência em 2002 e acabou falecendo em 2003.

Kitaro Watanabe, sétimo no ranking de 1989, faliu em 2006 e foi preso por obstrução e ocultação de propriedade. Hoje em dia promove palestras através da remanescente empresa imobiliária.

Haruhiko Yoshimoto, oitavo no ranking de 1989, apareceu a última vez na lista da Forbes em 1991, com 3 bilhões de dólares. Não encontramos mais registros sobre o que aconteceu com Haruhiko.

Dentre os irmãos Hans e Gad Rausing, nono na lista de 1989, Gad faleceu em 2000 e Hans continuou os negócios da família. Hans é um dos poucos bilionários da década de 80 que conseguiram manter e evoluir seu patrimônio. O mesmo aparece hoje em dia em 112º lugar na lista da Forbes, com uma fortuna estimada em 12 bilhões de dólares.

Por fim, Eitaro Itoyama, décimo no ranking de 1989, aparece na lista da forbes pela última vez em 2014, com uma fortuna aproximada de 500 milhões de dólares. Uma redução aproximada de 92% de seu auge.

Mobilidade Social

O que vemos ao observar quatro décadas de rankings de bilionários, é um fenômeno que Mises observou na década de 40, a mobilidade social. Fortunas são criadas a quem entrega valor aos consumidores, e em uma economia de mercado, são constantemente mutáveis.

É totalmente errada a visão de que riquezas são estáticas. Se os criadores das riquezas ou seus herdeiros não acompanharem as evoluções do mercado, e não criarem valor aos consumidores, em breve cairão no limbo e serão esquecidos. Assim como foram à maioria dos bilionários da década de 80.

Dubai – Anos 90 vs. Hoje

É errôneo achar também que a maioria dessas fortunas advêm de heranças. Em um estudo de 2016, constatou-se que quase 70% das fortunas dos super-ricos possuem como origem o enriquecimento próprio.

Vivemos hoje em um mundo com constante inovações tecnológicas, onde temos seis dos dez homens mais ricos do mundo, ligados a tecnologia. Esses são homens que diariamente nos surpreendem com suas criações que criam enorme valor para a sociedade.

O apetite que possuem para lançar novos produtos e serviços, barateiam cada vez mais a tecnologia e consequentemente trazem enormes benefícios para os consumidores de todas as classes.

Esse fenômeno também foi observado pelo economista italiano Vilfredo Pareto, o qual chamou de circulação das elites: “Sempre haverá no topo da escada social pessoas ricas, politicamente importantes, mas essas pessoas – essas elites – estão em contínua mudança.”

Isso é o que se aplica a uma sociedade capitalista, constantemente pobres enriquecem e descendentes de famílias ricas perdem suas fortunas, e se tornam pobres. Nenhuma riqueza é estática, todos são livres para mudar seu status.

Evidente que nem todos alcançam a posição que almejam, alguns nem querem alcança-las. Porém, o único sistema econômico que permite alguém a sair de uma condição de pobreza e elevar seu padrão de vida, é o capitalista.

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